Scrum nasceu para construir produto; implantação de ERP é configurar (e integrar) um produto que já existe. Dá para usar Scrum nesse cenário? Dá — e usamos. Mas só depois de adaptar o que precisa ser adaptado, sem fingir que parametrização é desenvolvimento de software.
O que muda no papel de Product Owner
O PO de uma implantação não prioriza funcionalidades a inventar — prioriza processos de negócio a colocar de pé. Por isso ele precisa vir do negócio (controladoria, logística, comercial), com autoridade real para decidir "assim está bom para operar". PO da TI, ou pior, da própria consultoria, é o padrão que mais vemos fracassar: as decisões de processo ficam órfãs.
Sprint entrega fluxo, não módulo
A tentação é fatiar por módulo ("sprint do financeiro, sprint do estoque"). Funciona melhor fatiar por fluxo ponta a ponta: comprar e receber um item, vender e faturar um pedido. Cada sprint termina com um fluxo demonstrável no ambiente de testes, com dado de verdade — e o negócio valida processo, não telas soltas.
Definição de pronto com dado migrado
Em implantação, "pronto" não é "configurado". Nossa definição de pronto exige: fluxo executado no ambiente de testes com dados migrados reais, integrações do fluxo funcionando, usuário-chave treinado naquele fluxo e exceções conhecidas documentadas. É mais dura — e é o que evita a surpresa clássica do go-live.
As cerimônias que valem e as que mudam
- Planning e review funcionam como no livro — a review com usuário-chave operando o fluxo é o melhor detector de problema que existe.
- Daily vira ponto de sincronização entre consultoria e time interno; quinze minutos, foco em bloqueio.
- Retrospectiva ganha um convidado fixo: o dono do cronograma geral. Implantação tem marcos externos (fechamento fiscal, contrato com o fornecedor antigo) que o Scrum sozinho não enxerga.
Onde o Scrum não basta
Migração de dados, infraestrutura e treinamento em escala são trilhas com dependências longas que não cabem em sprints — planejamos como frentes paralelas com marcos próprios, sincronizadas nas reviews. Ser ágil não é abolir o plano: é validar cedo e corrigir barato. Numa implantação de ERP, isso significa operar fluxos reais meses antes do go-live, e chegar na virada sem apostas.
